sexta-feira, 30 de julho de 2010

Por que Não Matá-lo?


Em minhas andanças pelas livrarias, achei um livro que me chamou a atenção.O título era "Batman e a Filosofia", um livro que tinha a proposta de reinterpretar alguns aspectos da Bat-mitologia pela ótica filosófica. Até aí, parecia apenas mais um produto criado para se auto-promover encima do sucesso do último filme do Morcego. Mas, quando folheei as primeiras páginas, fui fisgado e comprei. O primeiro capítulo abordava uma questão que está no imaginário popular há tempos: "Por que o Batman não mata o Coringa?". O exercicío criativo feito pelo filósofo norte-americano Mark D. White foi tão interessante que fiquei infectado.

Nos últimos 70 anos de histórias, o Coringa matou, mutilou, torturou, espancou, estuprou e até explodiu pessoas nas suas peripécias em Gotham City. Entre as vítimas, ele já assassinou desde pessoas próximas de Bruce Wayne até mesmo os próprios capangas que trabalhavam com ele. E, em todos os casos, Batman o caçava e prendia, até que ele fugisse semanas depois e começasse tudo de novo. "Por que não mata ele logo?", dizia alguém de vez em quando, "Pense em todas as vidas que isso salvaria!". Primeiramente, o código moral que Batman jurou seguir o impede disso. Para Batman, matar alguém seria cruzar a única linha que o diferencia dos criminosos. Mas ninguém está falando apenas do Morcegão, oras! Estamos falando também das pessoas que ficam a mercê desse palhaço psicopata. De um modo geral, em determinadas situações, pensamos que uma pessoa é obrigada a fazer algo que beneficiaria muitos, mesmo se não for de seu gosto. Mas se essa coisa for um assassinato?


O argumento a favor de matar o Coringa é direto e simples. Se Batman matá-lo, irá impedir todos os assassinatos hediondos que ele certamente fará no futuro, fora a satisfação da vingança por parte das famílias das vítimas que estará sendo realizada. Esse é uma linha de raciocínio típica do Utilitarismo, uma doutrina ética da filosofia que visa otimizar o bem-estar e felicidade das pessoas atráves das nossas ações. Preservar várias vidas ao preço de uma é um bom negócio, segundo os utilitaristas. Apesar disso, os super-heróis não pensam assim e os vilões, tanto sabem disso, que vez ou outra usam reféns para persuadi-los. "Está me dizendo que muitas pessoas irão morrer porque você não quer matar uma?", provavelmente algum utilitarista raivoso gritaria para Batman. A resposta dele provavelmente seria que teria medo de cruzar uma linha que ele teme não voltar jamais e etecetera e tal. Para dar continuidade ao exercício criativo, na contramão do Utilitarismo, vou evocar outra escola ética, chamada Deontologia.

Para os deontologistas, o julgamento da moralidade de um ato deve ter como base as características independentemente do próprio ato. Os fins não justificam os meios, pelo contrário, os meios devem ser justificados pelos seus próprios méritos. Seguindo essa linha, matar o Coringa para evitar futuras mortes é irrelevante, já que matar é errado e ponto final. Claro que, até mesmo o mais fervoroso deontologista é alheio a fazer exceções, por exemplo, matar em legitima defesa seria aceito pela Deontologia. Mas matar um maníaco homicida com maquiagem de palhaço, vale?



Existe uma situação hipotética criada pela filósofa Judith Jarvis Thomson onde existe um dilema moral clássico que encaixa perfeitamente com o problema aqui. O chamado "Problema do Bonde" constitui uma situação onde um bonde desce pelos trilhos e, à frente, nos trilhos principais, encontram-se cinco pessoas que não percebem o bonde descendo e não conseguirão sair do caminho a tempo. A única maneira de impedir o acidente é desviando o bonde para outros trilhos. Felizmente, dentro do bonde existe um observador e, ao lado dele, uma alavanca capaz de realizar a mudança dos trilhos, porém, há uma pessoa nesses outros trilhos que está muito perto e também não conseguirá escapar. O observador tem que decidir: Deixar que a inércia cause a morte de cinco pessoas ou sua interferência mate uma. No modelo de Thomson, o observador tem a permissão, não a obrigação, de puxar a alavanca. Ele pode desviar o bonde e salvar cinco mas é aceitável que ele tenha problemas em tal ato e não o faça.

Porém, no modelo de Thomson, todos os envolvidos são moralmente equivalentes. São pessoas que não possuem diferenças no modo de serem tratadas, de agirem e assim por diante. Mas o caso do Coringa é totalmente oposto: ele é o único no trilho alternativo e suas vítimas, são as cinco pessoas em perigo, portanto, seguindo a lógica acima, haveria uma influência a favor da morte do Coringa. Afinal de contas, seria insensato sacrificar cinco inocentes para preservar a vida daquele que vive para matar inocentes! Diferente do exemplo clássico do bonde, Coringa realmente coloca a vida dos outros em perigo. Se estivéssemos inclinados a matar um para salvar cinco, esse sentimento seria alimentado se soubéssemos que os cinco estão em perigo constante por causa daquele que está sozinho. Seria como se o Coringa amarrasse cinco reféns aos trilhos principais e ficasse no trilho alternativo para ver o que Batman faria no papel de observador!



O reconhecimento do papel do Coringa em construir situações também revela um pouco mais sobre a parcela de responsabilidade enfrentada pelo Batman. Quando alguém se aproxima e fala: "Se você não matar o Coringa, as mortes das futuras vítimas estarão em suas mãos", ele pode muito bem retrucar: "As mortes que o Coringa causa são responsabilidade apenas dele. Só sou responsável pelo que eu faço". Pegando o exemplo do observador e o bonde, é a mesma coisa que o observador afirmar: "Não foi eu que fiz o bonde colocar vida de pessoas em perigo, mas eu causaria a morte de uma se eu o desviasse."

Por um certo ângulo, Batman é obrigado a matar o Coringa, com o intuito de salvar inúmeras vidas que no futuro provavelmente ele matará. Provavelmente. Essa é a palavra-chave. Na verdade, não sabemos com certeza que ele matará mais pessoas. Hoje o Coringa pode ter matado alguém, mas amanhã ele pode morrer de causas naturais e, assim, jamais irá matar alguém, ou pode se arrepender dos seus crimes e parar a carreira de assassino. No frigir dos ovos, não podemos provar que ele matará de novo e, logo, não temos certeza que estaremos salvando alguma vida com a morte dele. Para se entender melhor esse fato, alteremos o exemplo do bonde: É como se houvesse um intenso nevoeiro, que obscurecesse a visão dos trilhos centrais, mas pudéssemos ver uma pessoa no trilho alternativo.Não sabemos se há alguém em perigo no trilho principal, a única coisa que sabemos é que às vezes passam pessoas por lá. Imagino que ninguém se sentiria bem em matar alguém para evitar a possibilidade de matar outros.


Certo, o Coringa tem um padrão bem estabelecido, um histórico que o levaria a pena de morte, se não fosse a clássica alegação de insanidade, e pode até afirmar que mataria de novo. Batman tem todas as razões para acreditar. Mesmo assim, é permitido dar um fim nele antes que volte a matar? Foi chamado pelos filósofos de "pré-punição" a prática de punir pessoas antes que elas cometessem crimes. Alguns diriam que, mesmo afirmando que mataria novamente, Coringa poderia mudar de idéia e é por respeito a essa capacidade de pensar que não devemos pré-punir.

No resumo da ópera, chegamos a conclusão que o Batman está certo em não ter matado o Coringa durante todos esses anos, certo? Não, nada certo. A morte do Coringa no início de tudo teria evitado uma série de tragédias para Gotham e para a vida de Bruce Wayne. O assassinato do Palhaço teria preservado centenas de vidas e não teria lotado tantos cemitérios. Esse é um dos casos onde é melhor a punição do que a esperança na reabilitação. Porém, graças aos quadrinhos, podemos discutir e ter experiências como esta sem necessitar vivenciá-las. Deus me livre de um Coringa e um Batman reais. O mundo já está muito insano do jeito que está, obrigado.

6 comentários:

Deilson Magal disse...

SHOW... Só tem erro na parte:Primeiramente, o código moral que ele(Batman) jurou seguir o impede disso.

Capitão Brasil RADIOATIVO disse...

Fantástico. Sr.C passa milênios sem psotar, mas quando posta...:P

Guilherme dos Reis disse...

Ótimo! O utilitarismo X deontologia e a proposta do bonde são, para mim, a melhor parte do livro. Legal que também tenham gostado!
Outro livro também muito bom é Os super-heróis e a filosofia, que aborda outros heróis também.
Escrevi recentemente um post tratando da relação dos heróis com filosofia, mitologia e outros assuntos no meu blog. Caso se interesse pelo assunto, eis o link: http://ficcaohq.blogspot.com/2010/08/o-simbolismo-dos-super-herois.html.
Abraços!

Caco Simeano disse...

Parabéns pelo post! O texto é a prova que discussões filosóficas podem ser modernas, criativas e interessantes! Parabéns!

Léo disse...

Não mata porque se não seria igual a todos os bandidos e assassinos, mas vejo que o caco simeano da palpite em todos os blogs, acho que o Batman deveria dar um jeito nele.

Anônimo disse...

Coringa tem que ser morto! Nem cadeia, nem hospício irá para-lo, pois ele dá um jeito de escapar e começa a matança tudo novamente!

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