sábado, 12 de dezembro de 2009

Carlos Zéfiro - Os bons tempos


Sacanagem sempre foi um negócio muito rentável, não importa a mídia da qual se fala. Nos quadrinhos não é diferente.
Hoje em dia vemos nas livrarias inúmeros álbuns de HQs com temática erótica, como os clássicos de Milo Manara ou as histórias de Giovanna Casotto, publicados no Brasil pela Conrad.

Entretanto, o quadrnho europeu é visto, tanto aqui quanto no Velho Continente, como arte e assim é tratado.
Brasileiros nunca deram muita bola pros gibis, "coisa de criança" é só a maneira mais famosa de denegrir a imagem da arte sequencial, mesmo em tempos onde brasileiros ganham Eisners e publicam muitas coisas lá fora.

Com este caráter típíco não era de se esperar que um autor de quadrinhos eróticos sobrevivesse nas bancas do Brasil, mas um homem tentou e, mesmo que não tenha conseguido, foi eternizado por seus trabalhos.

Em plena ditadura militar, um tal Carlos Zéfiro apareceu nas bancas com seus famosos "catecismos" (que tinham esse nome por serem vendidas dentro de revistas religiosas). Revistas que cabiam no bolso e passavam de mão em mão entre os adolescentes da época, ensinando a sacanagem aos jovens onanistas daquele tempo.


O enigmatico Zéfiro teve suas atividades começadas nos anos 50, já na clandestinidade e tudo só piorou com o golpe de 64, mas lá estava o educador do Sexo, com seus quadrinhos safados e de qualidade duvidosa, já que erros de português eram frequentes e seus desenhos não eram obras-primas, mas isto era o de menos, porque o que interessava no trabalho de Zéfiro era a sacanagem.

Já foi chamado de Nelson Rodrigues dos quadrinhos justamente por colocar a sensualidade em situações corriqueiras e por sempre privilegiar a mulher. Em suas histórias as moças é que mandavam, elas eram o centro das atenções, assim como na obra de Rodrigues.
Empregadas, professoras, donas de casa, secretárias, e todas as mulheres foram retratadas em sua obra, mas o Sexo era o personagem principal. Sacanagem sempre foi algo rentável...

É óbvio que sua obra nunca foi preservada, já que raramente eram guardadas por seus compradores e também devido ao fato de não terem uma editora ou uma data de publicação, tudo com o intento de despistar os censores da época.

Em 1991 o editor da "Playboy" Juca Kfouri desvendou o mistério: Carlos Zéfiro era na verdade um funcionário do Depertamento de Imigração, o carioca Alcides Caminha. Um homem modesto e humilde que só se "revelou" devido a pressão de seus filhos. Foi um negócio interessante pra ele, já que pode vender originais e arrecadar algum dinheiro, mas não durou muito, já que o nobre professor deixou este mundo em 5 de julho de 1992, menos de um ano após ter sua indentidade revelada.

Mesmo em seus quinze minutos de fama, Alcides se mostrou humilde e disse ao ser perguntado se tinha consciência de que fazia parte da história cultural do país:

"não ligo muito para isso, não. Com sinceridade. Afinal é muita honra para um pobre marquês. Acho tudo na vida muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo e acabou"

Hoje, Alcides "Zéfiro" Caminha é exaltado, tendo alguns de seus catecismos(estima-se que existiram mais de 600) em livrarias e seu nome lembrado por muitos. Alcides também foi co-compositor de algumas músicas ao lado de Nelson Cavaquinho, como "Notícia" e "A flor e o espinho".

Leia a entrevista que ele concedeu a revista Semanário nº 186 de Fevereiro de 1992 e entenda um pouco mais sobre a trajetória do quadrinhista. (A página também contém outras informações e um pequeno acervo com obras de Zéfiro)

Seu lagado está em diversos lugares. Além de, lógico, quadrinhos eróticos beberem de Zéfiro, Marisa Monte usou a arte do mestre na capa de seu álbum “Barulhinho Bom”, de 1997 e a MTV já criou uma vinheta totalmente inspirada nos catescismos. Enfim, a sem-vergonhice de Carlos Zéfiro deixou marcas na cultura nacional.

Alcides deve ser eternamente lembrado pelos bons tempos de Carlos Zéfiro e suas obras são sim parte da cultura deste país, mas que seus quadrinhos jamais alcancem status de arte, porque a arte é feita pra se mostrar e sacanegem é feita pra se esconder.

Fontes:

- Black Zombie
- Blodega
- http://www.carloszefiro.com.br/

1 comentários:

opiorblogqueexiste disse...

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